terça-feira, 24 de setembro de 2013

O DESMANTELAMENTO DO HOSPITAL GERAL


Quase dois anos são passados sobre o início do processo de fusão dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) e do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra (CHPC).
Não acredito em teorias de conspiração, sou por natureza optimista e sempre encarei as mudanças como uma oportunidade de melhorar.
Com este espírito encarei esta mudança como uma oportunidade de reorganizar os serviços de saúde de Coimbra e da região, de eliminar redundâncias e de potenciar a utilização dos recursos instalados.
As mudanças foram lentas, não enquadradas em qualquer plano estratégico, uma vez que este ainda hoje não existe. O Serviço de Neurocirugia do Hospital Geral (HG) foi transferido de armas e bagagens para o edifício dos HUC. Acreditei que a junção dos dois serviço com carências complementares, poderia ser útil e vantajoso para os utentes. Rapidamente nos apercebemos de que o novo Serviço tem uma produção inferiores à soma dos dois serviços que o integraram.
Mudaram a Gastroenterologia e deixaram apenas os exames complementares de Gastro a funcionar no HG.
Fecharam a Urgência noturna no HG, e recambiam os doentes para o HG no dia seguinte.
Transferiram o Serviço de Doenças Infecciosas do HG para o HUC.
Agora vão encerrar o Serviço de Neurologia no HG, levando a unidade de AVC, o triplex..., para engrossar o Serviço de Neurologia existente nos HUC.
Sendo optimista seria levado a pensar que depois destas mudanças sobrariam espaços para fazer remodelações, reinstalar serviços eventualmente mal instalados ou equipados; qualquer coisa menos assumir que o edifício vai ficar devoluto, como já está o do antigo Hospital Pediátrico.
No entanto, o pessimismo tem limites e em demasia talvez seja idiotice e é isso que começo a sentir. Quando estas mudanças implicam o completo esvaziamento dos Serviços, retirando móveis, cadeiras, equipamentos, computadores, fica-nos a dúvida sobre o real interesse em reaproveitar os espaços libertados para melhorar o que quer que seja. Questionamo-nos sobre a capacidade do edifício do HUC para continuar a acumular móveis, equipamentos, profissionais e utentes provenientes do HG. Até as leis da física se alteram para poder acumular no HUC todo o HG.
Fica-nos a dúvida se estamos a falar de fusão, de reorganização de Hospitais ou de puro desmantelamento de instituições. À luz da teoria da conspiração poderia pensar que, finalmente, a Universidade de Coimbra está a vingar-se do Professor Bissaya Barreto.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

ACTIVIDADE MÉDICA: DOS RECIBOS VERDES AO OUTSOURCING


Desde o meu tempo de estudante que ouço os comentários mais variados sobre a remuneração dos médicos. E como frequentei a faculdade nos tempos quentes pós 25 de Abril, naturalmente que ouvi comentários muito revolucionários criticando as chorudas remunerações dos médicos, contrastando com as das classes ditas exploradas.
Muita água correu debaixo das pontes desde então e muita gente esqueceu os propósitos honestos, sérios e justos de uma juventude cheia de ideais.
Alguns anos depois as criticas voltavam-se para algumas alegadas ilegalidades da prática médica, também relacionadas com dinheiro e com vigarices visando o lucro fácil.
De repente, no tempo das vacas loucas (fictícias), passou a ganhar-se dinheiro loucamente, explorando um sistema mercantil da prática médica, promovido pelos pagadores, o próprio Ministério da Saúde.
Depois de ter promovido o crescimento inapropriado dos recursos humanos nas instituições de saúde, de ter promovido as remunerações baseadas em produções destituídas de objectivos sociais e ou de saúde, vem este Ministério promover esquemas remuneratórios miserabilistas, promovendo a desqualificação, não dos médicos, mas da Medicina.
Refiro-me à contratação de recursos humanos via empresas de recrutamento. Na minha terra existia este regime de trabalho para os chamados “contratados” que iam fazer a apanha dO café e ou do algodão. Mesmo neste contexto, trabalho individual, sem encadeamento processual, aquele regime era considerado injusto e explorador dos trabalhadores (no tempo em que se acreditava nalguma justiça social). Hoje contrata-se um médico, um enfermeiro, um fisioterapeuta, um terapeuta da fala por valores ridículos, para fazer trabalho altamente diferenciado, enquadrado em trabalho com sequência e continuidade de cuidados, como se estivéssemos numa linha de fabricação de charcutaria.
O profissional de saúde vai à instituição, pratica os seu atos específicos e depois deixa o utente entregue aos cuidados dos profissionais residentes, com os quais não estabelecem uma relação hierárquica, nem sequer de colaboração.
Em 30 anos passámos duma prática médica bem remunerada na atividade privada, por uma atividade hospitalar dependente, com um ordenado fixo miserável, e horas extraordinárias pagas principescamente, quantas vezes questionáveis. Chegámos agora ao tempo em que continuamos a ser pagos de modo miserável para produzir atos e não para fazer Medicina. Qualquer contrato impõe horas e produção que promove a desqualificação e o fim da Medicina como uma atividade organizada em torno do doente.
Não me revejo em nada disto e espero não ter que um dia vir a ser utente de um regime destes. O que me custa a aceitar é que por mais vil que seja este sistema, vão sempre aparecer profissionais de saúde para alinhar por necessidade real ou por ganância.

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