sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

ACTIVIDADE MÉDICA: DOS RECIBOS VERDES AO OUTSOURCING


Desde o meu tempo de estudante que ouço os comentários mais variados sobre a remuneração dos médicos. E como frequentei a faculdade nos tempos quentes pós 25 de Abril, naturalmente que ouvi comentários muito revolucionários criticando as chorudas remunerações dos médicos, contrastando com as das classes ditas exploradas.
Muita água correu debaixo das pontes desde então e muita gente esqueceu os propósitos honestos, sérios e justos de uma juventude cheia de ideais.
Alguns anos depois as criticas voltavam-se para algumas alegadas ilegalidades da prática médica, também relacionadas com dinheiro e com vigarices visando o lucro fácil.
De repente, no tempo das vacas loucas (fictícias), passou a ganhar-se dinheiro loucamente, explorando um sistema mercantil da prática médica, promovido pelos pagadores, o próprio Ministério da Saúde.
Depois de ter promovido o crescimento inapropriado dos recursos humanos nas instituições de saúde, de ter promovido as remunerações baseadas em produções destituídas de objectivos sociais e ou de saúde, vem este Ministério promover esquemas remuneratórios miserabilistas, promovendo a desqualificação, não dos médicos, mas da Medicina.
Refiro-me à contratação de recursos humanos via empresas de recrutamento. Na minha terra existia este regime de trabalho para os chamados “contratados” que iam fazer a apanha dO café e ou do algodão. Mesmo neste contexto, trabalho individual, sem encadeamento processual, aquele regime era considerado injusto e explorador dos trabalhadores (no tempo em que se acreditava nalguma justiça social). Hoje contrata-se um médico, um enfermeiro, um fisioterapeuta, um terapeuta da fala por valores ridículos, para fazer trabalho altamente diferenciado, enquadrado em trabalho com sequência e continuidade de cuidados, como se estivéssemos numa linha de fabricação de charcutaria.
O profissional de saúde vai à instituição, pratica os seu atos específicos e depois deixa o utente entregue aos cuidados dos profissionais residentes, com os quais não estabelecem uma relação hierárquica, nem sequer de colaboração.
Em 30 anos passámos duma prática médica bem remunerada na atividade privada, por uma atividade hospitalar dependente, com um ordenado fixo miserável, e horas extraordinárias pagas principescamente, quantas vezes questionáveis. Chegámos agora ao tempo em que continuamos a ser pagos de modo miserável para produzir atos e não para fazer Medicina. Qualquer contrato impõe horas e produção que promove a desqualificação e o fim da Medicina como uma atividade organizada em torno do doente.
Não me revejo em nada disto e espero não ter que um dia vir a ser utente de um regime destes. O que me custa a aceitar é que por mais vil que seja este sistema, vão sempre aparecer profissionais de saúde para alinhar por necessidade real ou por ganância.

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