segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O INTERNATO MÉDICO NO CHC EPE

No período que se seguiu à passagem a EPE dos primeiros hospitais, um dos espantalhos frequentemente utilizados era o problema da formação médica que, na sua vertente pós graduada, clínica, é responsabilidade dos Hospitais.


Não sei se a culpa foi do estatuto EPE, se foi dos responsáveis da instituição, este espantalho esteve quase a transformar-se em realidade no CHC EPE.
O CHC que desde a sua existência se bateu para preservar a força rejuvenescedora dos jovens médicos, esteve à beira de perder a idoneidade formativa.
E esta idoneidade é mais fácil de perder que de recuperar.
Eu sei as dificuldades que tive para conseguir a idoneidade para a formação de internos no CHC e. mais tarde para conseguir a mesma idoneidade no Centro de Medicina de Reabilitação na Tocha.
É por isso que me custa imaginar o retrocesso institucional que representaria termos de recomeçar a via sacra das idoneidade formativas.
Este assunto vem a propósito da recepção aos novos internos que decorreu nos dias 4 e 5 de Janeiro. Foi uma pena constatar como os clínicos seniores da instituição primaram pela ausência, em especial os Directores de Serviço.


Sou pouco fã de futebol, mas constato que a realidade futebolística tem alguns exemplos que se aplicam a outras situações da vida social.
Os grandes clubes continuam a ter as suas escolas de formação de jogadores, pois elas constituem a garantia de continuidade dos mesmos, com custos mais moderados. Os hospitais formadores não conquistam o dinheiro do passe mas têm o privilégio de estar na primeira linha para escolherem os melhores, sem terem que os aliciar artificialmente.


Estarei a ser exagerado ou a importância dos novos médicos tem sido pouco valorizada, sobretudo numa época em que temos de pensar na renovação, para consolidar a nossa posição e assegurar a continuidade do serviço às populações?



domingo, 10 de janeiro de 2010

CUIDADOS CONTINUADOS OU CONTINUIDADE NO TRATAMENTO?



Num texto prévio, comentei a análise SWAT que o anterior CA do CHC fez referindo-se ao envelhecimento da população como uma ameaça, quando deveria ter sido valorizado como uma oportunidade de negócio.

Quanto a mim, o envelhecimento da população deveria e poderá ser considerado como uma oportunidade de negócio para o Centro Hospitalar de Coimbra.
É hoje um facto conhecido que a média de idade da nossa população está a crescer e que a esperança de vida da mesma é hoje muito superior.

Deste envelhecimento resulta uma redução das capacidades executivas nos diferentes domínios da actividade humana. O próprio envelhecimento saudável implica redução de algumas ou de muitas das competências executórias.
Situações de equilíbrio rapidamente se descompensam com pequenos eventos de doença, mesmo que transitória. Estes desiquilíbrios da situação individual traduzem-se por situações de incapacidade face a uma ambiente externo pouco preparado.
As situações de patologia são cada vez mais complexas e em pessoas cada vez mais idosas, criando dificuldades de assegurar a permanência na comunidade e/ou no meio familiar. As infra-estruturas de acolhimento temporário ou definitivo desta população são insuficientes e geridas por uma estrutura muito afastada do terreno.

As Unidade de Cuidados Continuados surgiram e têm vindo a ser utilizadas de modo mais ou menos adequado ao cumprimento da sua missão, nem sempre bem compreendida pelas populações nem pelo profissionais de saúde.

O CHC tem condições extremamente favoráveis ao desenvolvimento de uma actividade assistencial destinada a fazer face às necessidades emergentes desta população, de um modo global, abrangente  centrado na dignidade da pessoa idosa.
1 - Existe uma cultura de humanismo na prestação dos cuidados, difícil de concorrenciar;
2 - Temos um enquadramento físico das nossas instituições único;
3 - Temos espaço construtivo e instalações devolutas (ou quase) passíveis de adaptar a este fim;
4 - Temos um corpo clínico altamente qualificado, habituado a trabalhar em colaboração (e a lidar cada vez melhor com o envelhecimento da nossa população).

Falta-nos capacidade financeira, uma vez que o capital social da EPE está praticamente consumido pelos resultados transitados. No entanto não temos alternativas que não sejam encontrar uma via de futuro ou morrer lentamente, perdendo qualificação, desperdiçando recursos e acabando por custar mais dinheiro à comunidade.

Os cuidados continuados têm sido tratados como um parente pobre da Medicina e como um parente rico dos lares de terceira idade. Tudo tem sido colocado no mesmo saco independentemente de estarmos a lidar com situações onde a continuidade dos cuidados se integra numa perspectiva clara de reabilitação activa, numa perspectiva de convalescença médica ou apenas numa situação final de institucionalização com apoio sanitário.

É preciso qualificar os cuidados continuados nomeadamente os de convalescença como verdadeiras estruturas de Medicina de Reabilitação. É preciso exigir maior presença médica nas Unidades de Cuidados Continuados, a bem dos utentes. É preciso manter em meio hospitalar alguns doentes "evacuados" para as unidades periféricas, quando ainda necessitam de uma intervenção qualificada.

Para isso é preciso ousarmos, e ousar é trazer alguns destes cuidados para as unidades hospitalares, melhor, ter unidades tampão de MFR que assegurem a interface entre a intervenção especializada de carácter médico ou cirúrgico e os cuidados continuados.
A garantia da continuidade e de um tratamento holístico, baseia-se assim na prestação sequencial de cuidados, sem agravar os tempos de hospitalização, nem prejudicar os utentes.


Esta é uma via possível, tecnicamente à altura das nossas competências, adequada às necessidades dos nossos utentes. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

SINTO VERGONHA DE MIM  

Sinto vergonha de mim 
por ter sido educador de parte deste povo,
por ter batalhado sempre pela justiça, 
por compactuar com a honestidade, 
por primar pela verdade 
e por ver este povo já chamado varonil 
enveredar pelo caminho da desonra. 
  
Sinto vergonha de mim 
por ter feito parte de uma era 
que lutou pela democracia, 
pela liberdade de ser 
e ter que entregar aos meus filhos, 
simples e abominavelmente, 
à derrota das virtudes pelos vícios, 
à ausência da sensatez 
no julgamento da verdade, 
à negligência com a família, 
célula-Mater da sociedade, 
à demasiada preocupação 
com o 'eu' feliz a qualquer custo, 
buscando a tal 'felicidade' 
em caminhos eivados de desrespeito 
para com o seu próximo. 
  
Tenho vergonha de mim 
pela passividade em ouvir, 
sem despejar meu verbo, 
a tantas desculpas ditadas 
pelo orgulho e vaidade, 
a tanta falta de humildade 
para reconhecer um erro cometido, 
a tantos 'floreios' para justificar 
actos criminosos, 
a tanta relutância 
em esquecer a antiga posição 
de sempre 'contestar', 
voltar atrás 
e mudar o futuro. 
  
Tenho vergonha de mim 
pois faço parte de um povo que não reconheço, 
enveredando por caminhos 
que não quero percorrer... 
  
Tenho vergonha da minha impotência, 
da minha falta de garra, 
das minhas desilusões 
e do meu cansaço. 


Não tenho para onde ir 
pois amo este meu chão, 
vibro ao ouvir o meu Hino 
e jamais usei a minha Bandeira 
para enxugar o meu suor 
ou enrolar o meu corpo 
na pecaminosa manifestação de nacionalidade. 


Ao lado da vergonha de mim, 
tenho tanta pena de ti, 
povo deste mundo! 
'De tanto ver triunfar as nulidades, 
de tanto ver prosperar a desonra, 
de tanto ver crescer a injustiça, 
de tanto ver agigantarem-se os poderes 
nas mãos dos maus, 
o homem chega a desanimar da virtude, 
A rir-se da honra, 
a ter vergonha de ser honesto'. 
Rui Barbosa
Poeta brasileiro - séc XIX e XX

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